quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Por uma Estratégia de Desenvolvimento Integral: Tributação Progressiva e o Estado de Bem-Estar Social no Brasil Contemporâneo

 

Por uma Estratégia de Desenvolvimento Integral: Tributação Progressiva e o Estado de Bem-Estar Social no Brasil Contemporâneo

 

Autor: Waldemiro Pereira da Cruz Junior

 

Resumo

Este ensaio propõe uma reflexão sobre os fundamentos de uma estratégia de desenvolvimento nacional para o Brasil, articulando as dimensões econômica, social e ambiental. Defende-se que tal projeto deve transcender a esfera técnica para se tornar um horizonte ético compartilhado pela sociedade. O artigo estrutura-se em três pilares indissociáveis: a definição de um objetivo final civilizatório, a trajetória macroeconômica facilitadora e as políticas públicas concretizadoras. Com base nos preceitos clássicos de David Ricardo e nas contribuições contemporâneas de André Lara Resende e Gustavo Franco, argumenta-se que um sistema tributário progressivo é não apenas uma ferramenta de justiça social, mas também um imperativo de eficiência econômica para financiar um Estado de Bem-Estar Social robusto — condição essencial para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável e inclusivo.

Palavras-chave: Desenvolvimento Nacional. Estado de Bem-Estar Social. Tributação Progressiva. David Ricardo. Macroeconomia do Desenvolvimento.

 

Abstract

This essay reflects on the foundations of a national development strategy for Brazil, integrating economic, social, and environmental dimensions. It argues that such a project must transcend technical parameters to become an ethical horizon shared by society. The paper is structured around three interdependent pillars: the definition of a civilizational end goal, the macroeconomic trajectory that enables it, and the public policies that materialize it. Drawing on David Ricardo’s classical principles and the contemporary insights of André Lara Resende and Gustavo Franco, it argues that a progressive tax system is not only a tool for social justice but also an economic imperative for financing a robust Welfare State — an essential condition for truly sustainable and inclusive development.

Keywords: National Development. Welfare State. Progressive Taxation. David Ricardo. Development Macroeconomics.

 

 Introdução

A construção de um projeto nacional de desenvolvimento é um empreendimento que exige mais do que a mera soma de políticas setoriais; requer uma visão integrada e mobilizadora que emule o imaginário social, transformando-se em uma utopia orientadora. Este artigo postula que uma estratégia factível e transformadora deve assentar-se sobre três pilares inseparáveis: a definição do “ponto final” social desejado; a trajetória macroeconômica que viabiliza sua consecução; e as políticas públicas que, simultaneamente, promovem justiça social e alimentam o projeto desenvolvimentista.

Para além de instrumentos, objetivos e metas, é imperativo que essa estratégia se converta em um sonho coletivo, capaz de galvanizar a nação. Uma sociedade que não sonha dificilmente almeja objetivos claros e compartilhados. O objetivo central deste trabalho é, portanto, esboçar os contornos desse projeto, com especial ênfase na administração fiscal e no sistema tributário, revisitando os ensinamentos de David Ricardo (1982) e dialogando com as reflexões contemporâneas de André Lara Resende (2017), que denuncia a rigidez dogmática da macroeconomia convencional, e Gustavo Franco (2005), que reflete sobre o sentido ético e humano da economia como ciência social.

 

O Horizonte Civilizatório: o Estado de Bem-Estar Social como Fim

 

O objetivo final de uma estratégia de desenvolvimento nacional deve ser a edificação de uma sociedade organizada em torno de uma política eficaz de pleno emprego em ocupações dignas e saudáveis. Esse projeto contempla uma sociedade intrinsecamente democrática, tecnologicamente avançada e ambientalmente sustentável. A infraestrutura material — logística, energia, saneamento e transportes — deve ser moderna e universal, servindo como base para a prosperidade coletiva.

Esse conjunto de aspirações encontra sua síntese conceitual no Estado de Bem-Estar Social, considerado a maior conquista civilizatória do século XX (MARSHALL, 1967). Tal modelo conformou um ambiente institucional que valoriza simultaneamente a liberdade individual, a atividade empresarial, a gestão republicana e a justiça social.

Contudo, sua sustentabilidade requer uma economia que subordine a lógica financeira aos objetivos sociais. É nesse ponto que o pensamento de Lara Resende (2017) torna-se particularmente relevante. Em A Crise da Macroeconomia, o autor afirma que o paradigma tradicional, ancorado na escassez e na neutralidade da moeda, perdeu validade. Para ele, o Estado, como emissor soberano da moeda, não é um agente doméstico comum; portanto, a austeridade fiscal cega pode inviabilizar o próprio desenvolvimento. A economia deve estar a serviço da sociedade — e não o contrário.

 

 A Macroeconomia a Serviço do Desenvolvimento

 

O modelo macroeconômico é a espinha dorsal que sustenta ou inviabiliza um projeto desenvolvimentista. O tripé composto pela política fiscal, monetária e cambial deve ser coordenado para criar um ambiente de baixo custo orçamentário, permitindo o financiamento das políticas sociais universalistas.

Políticas monetárias excessivamente restritivas, com juros elevados, impõem um fardo pesado ao orçamento público via serviço da dívida, comprimindo os gastos em áreas essenciais como saúde e educação. Existe, assim, uma clara tensão entre as políticas macroeconômicas e as sociais.

Lara Resende (2017) denuncia que a macroeconomia dominante ainda opera sob uma “visão pré-keynesiana”, tratando a moeda como neutra e o Estado como devedor comum. Ao reabilitar a dimensão política da economia, o autor propõe uma macroeconomia da abundância responsável, na qual a capacidade produtiva e o bem-estar social são os verdadeiros limites à expansão do gasto público.

Em consonância, Gustavo Franco (2005), em *Cartas a um Jovem Economista, recorda que a economia é uma disciplina moral, dependente de valores, escolhas e visões de mundo. O desafio do economista, segundo ele, é harmonizar eficiência técnica com justiça social — o que implica uma leitura ética da política econômica.

Portanto, uma macroeconomia a serviço do desenvolvimento deve romper com o dogma da neutralidade fiscal e reconhecer que o gasto público socialmente produtivo é um investimento em capital humano e coesão nacional, não uma despesa a ser contida.

 

A Administração Fiscal Desenvolvimentista e a Herança de Ricardo

A administração fiscal desenvolvimentista deve conciliar três objetivos: fazer justiça social, manter a economia em rota de crescimento com geração de empregos e gerir a dívida pública com responsabilidade. O equilíbrio orçamentário não é um fim em si mesmo, mas um instrumento macroeconômico.

Como demonstra a história econômica, orçamentos se equilibram em períodos de crescimento robusto, não através de cortes recessivos que, ao deprimir a atividade econômica, reduzem a arrecadação e ampliam os déficits.

A justiça social na administração fiscal é perseguida tanto pela via dos gastos quanto pela arrecadação. É neste ponto que os postulados de David Ricardo (1982) se mostram profeticamente contemporâneos. Para o autor, um bom sistema tributário deve ser claro, econômico na cobrança e incidir sobre a renda, e não sobre o capital. Ele alertava que “os impostos sobre a produção ou sobre os lucros do capital... seriam, em última análise, transferidos para o consumidor, através de preços mais altos, ou absorvidos pelo produtor, corroendo os fundos destinados à acumulação” (RICARDO, 1982, p. 123).

Essa visão encontra eco nas preocupações contemporâneas com a regressividade tributária e com a financeirização da economia. Tanto Lara Resende quanto Franco reconhecem que a racionalidade fiscal deve estar a serviço da prosperidade coletiva, e não submissa ao automatismo dos mercados. O sistema tributário progressivo é, assim, o elo entre a tradição clássica e a sensibilidade moderna: **tributar a riqueza improdutiva e liberar o potencial humano.

 

Considerações Finais

 

A estratégia de desenvolvimento aqui delineada é, antes de tudo, um convite para sonhar um Brasil mais próspero, justo e sustentável. Ela não se realiza apenas na técnica, mas na capacidade de mobilizar a sociedade em torno de um projeto comum. O Estado de Bem-Estar Social emerge como o horizonte civilizatório desse esforço, e sua viabilidade depende criticamente de um pacto fiscal inteligente e justo.

Revisitar David Ricardo não é um exercício de arqueologia econômica, mas uma forma de recuperar insights estruturantes sobre a relação entre tributação, acumulação e equidade. O diálogo com André Lara Resende e Gustavo Franco revela que a macroeconomia é, antes de tudo, uma escolha civilizatória. Reformar o sistema tributário e reconceber a política macroeconômica como instrumentos de desenvolvimento integral é um desafio simultaneamente técnico e ético.

A construção desse futuro não é uma mera carta de intenções, mas um imperativo moral e histórico para a nação brasileira.

 



Referências

 

FRANCO, Gustavo. Cartas a um Jovem Economista. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

KEYNES, John Maynard. *A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Atlas, 1982.

LARA RESENDE, André. A Crise da Macroeconomia: Crítica à Ortodoxia e à Falácia da Escassez Monetária. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

MARSHALL, T. H. Cidadania, Classe Social e Status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

RICARDO, David. Princípios de Economia Política e Tributação. São Paulo: Nova Cultural, 1982. (Os Economistas).

SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Reflexão: A Era sem Narrativas

O Fim das Narrativas e a Morte do Futuro: Reflexões a partir de Byung-Chul Han

Resumo

O presente artigo reflete sobre o conceito de “crise da narração” formulado pelo filósofo Byung-Chul Han, examinando como o excesso de informações e o ritmo acelerado da vida contemporânea dissolvem a continuidade da experiência e, por consequência, o sentido espiritual da existência. Analisa-se a perda da narrativa como sintoma de uma modernidade técnica e desumanizada, que reduz o tempo à instantaneidade e o futuro à mera atualização. Argumenta-se que a recuperação da dimensão narrativa e espiritual é condição essencial para a esperança e para a reconstrução do sentido humano do tempo.

Palavras-chave: Byung-Chul Han; narrativa; espiritualidade; modernidade; tempo.


1. A Crise da Narração e a Fragmentação do Tempo

Vivemos em uma época que celebra a velocidade, a conexão e a atualização constante. Cada segundo é preenchido por dados, opiniões e notificações. Mas sob a aparência de movimento, esconde-se um esvaziamento silencioso: perdemos o fio da narrativa. É isso que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2023) chama de “a crise da narração” — uma crise que não é apenas literária, mas existencial.

A narração, segundo Han, é o modo humano de dar sentido ao tempo. Contar uma história é costurar passado, presente e futuro em uma unidade viva. É criar continuidade onde o caos ameaça dominar. No entanto, o tsunami de informações do mundo digital fragmenta o tempo em instantes. O presente se torna absoluto, tirânico. O passado já não orienta, e o futuro se reduz a um “update” — uma atualização técnica, sem transcendência.

O resultado é uma forma de vida sem história. Movemo-nos de um problema para outro, de uma crise para a seguinte, de uma tela para outra. A vida torna-se sobrevivência: uma sequência de respostas imediatas, sem horizonte. Resolver problemas substitui o ato de sonhar. A técnica substitui o sentido. O indivíduo moderno, apesar de saturado de estímulos, sente-se vazio — porque vive sem narrativa, sem interioridade e, portanto, sem espiritualidade.


2. Espiritualidade e Esperança: A Dimensão Perdida

Sem espiritualidade, não há futuro.
O futuro não é apenas o que virá — é o que podemos imaginar. E imaginar é um ato espiritual, um gesto de transcendência. Quando Han (2023) afirma que “somente a narração desvela o futuro, somente ela dá esperança”, ele nos lembra que a esperança é uma forma de fé — fé na continuidade, fé na capacidade de transformar o presente em algo maior.

A espiritualidade, nesse contexto, não precisa ser religiosa; ela é a experiência de profundidade que nos reconecta com o sentido do tempo, com a escuta, com o outro e com o invisível que orienta a existência. É o antídoto contra o imediatismo da era digital.
Em sintonia com Walter Benjamin (1985), Han mostra que o narrador é aquele que transforma experiência em sabedoria. A perda da narrativa, portanto, é também a perda da sabedoria, substituída pela informação descartável.

Portanto, a pergunta essencial não é apenas se há futuro sem espiritualidade, mas que tipo de futuro é possível sem ela. Um futuro sem narrativa será apenas a repetição acelerada do presente — técnico, funcional, mas sem alma. Já um futuro espiritual, narrativo e simbólico, é aquele que reabre o tempo à esperança, à memória e ao sonho.


3. Fecho Filosófico e Poético: O Silêncio como Resistência

Quando tudo fala ao mesmo tempo, só o silêncio guarda sentido.
É no espaço silencioso entre uma informação e outra que o ser reencontra a si mesmo — não como dado, mas como história. O silêncio é o lugar onde o tempo se recompõe, onde a vida deixa de ser fluxo e volta a ser rio.

Byung-Chul Han (2015) nos lembra, em O Aroma do Tempo, que apenas o tempo contemplativo pode devolver à vida sua profundidade perdida. O sujeito que não se permite silenciar torna-se escravo da urgência — e o urgente é sempre raso.

Resistir, hoje, é calar, escutar e narrar novamente.
Resistir é voltar a escrever o próprio destino, devolvendo ao tempo sua espessura espiritual. É acreditar que a esperança ainda pode nascer da lentidão e que a alma, mesmo fragmentada, ainda deseja continuidade.

Somente onde o tempo se faz lento, o futuro volta a florescer.
E somente quem reencontra o silêncio — esse intervalo sagrado entre o som e o sentido — pode, enfim, reencontrar o caminho da esperança.


Referências

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: ______. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 197–221.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Lisboa: Relógio D’Água, 2023.

HAN, Byung-Chul. O aroma do tempo: um ensaio filosófico sobre a arte da demora. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 10. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.