Por uma Estratégia de Desenvolvimento Integral: Tributação Progressiva e o Estado de Bem-Estar Social no Brasil Contemporâneo
Autor: Waldemiro Pereira da Cruz Junior
Resumo
Este ensaio propõe uma reflexão sobre os
fundamentos de uma estratégia de desenvolvimento nacional para o Brasil,
articulando as dimensões econômica, social e ambiental. Defende-se que tal
projeto deve transcender a esfera técnica para se tornar um horizonte ético
compartilhado pela sociedade. O artigo estrutura-se em três pilares
indissociáveis: a definição de um objetivo final civilizatório, a trajetória
macroeconômica facilitadora e as políticas públicas concretizadoras. Com base
nos preceitos clássicos de David Ricardo e nas contribuições contemporâneas de André
Lara Resende e Gustavo Franco, argumenta-se que um sistema tributário
progressivo é não apenas uma ferramenta de justiça social, mas também um
imperativo de eficiência econômica para financiar um Estado de Bem-Estar Social
robusto — condição essencial para um desenvolvimento verdadeiramente
sustentável e inclusivo.
Palavras-chave: Desenvolvimento Nacional.
Estado de Bem-Estar Social. Tributação Progressiva. David Ricardo.
Macroeconomia do Desenvolvimento.
Abstract
This essay reflects on the foundations of a
national development strategy for Brazil, integrating economic, social, and
environmental dimensions. It argues that such a project must transcend
technical parameters to become an ethical horizon shared by society. The paper
is structured around three interdependent pillars: the definition of a
civilizational end goal, the macroeconomic trajectory that enables it, and the
public policies that materialize it. Drawing on David Ricardo’s classical
principles and the contemporary insights of André Lara Resende and Gustavo
Franco, it argues that a progressive tax system is not only a tool for social
justice but also an economic imperative for financing a robust Welfare State —
an essential condition for truly sustainable and inclusive development.
Keywords: National Development. Welfare
State. Progressive Taxation. David Ricardo. Development Macroeconomics.
Introdução
A construção de um projeto nacional de
desenvolvimento é um empreendimento que exige mais do que a mera soma de
políticas setoriais; requer uma visão integrada e mobilizadora que emule o
imaginário social, transformando-se em uma utopia orientadora. Este artigo
postula que uma estratégia factível e transformadora deve assentar-se sobre
três pilares inseparáveis: a definição do “ponto final” social desejado; a
trajetória macroeconômica que viabiliza sua consecução; e as políticas públicas
que, simultaneamente, promovem justiça social e alimentam o projeto
desenvolvimentista.
Para além de instrumentos, objetivos e
metas, é imperativo que essa estratégia se converta em um sonho coletivo, capaz
de galvanizar a nação. Uma sociedade que não sonha dificilmente almeja
objetivos claros e compartilhados. O objetivo central deste trabalho é,
portanto, esboçar os contornos desse projeto, com especial ênfase na
administração fiscal e no sistema tributário, revisitando os ensinamentos de David
Ricardo (1982) e dialogando com as reflexões contemporâneas de André Lara
Resende (2017), que denuncia a rigidez dogmática da macroeconomia convencional,
e Gustavo Franco (2005), que reflete sobre o sentido ético e humano da economia
como ciência social.
O Horizonte Civilizatório: o Estado de Bem-Estar Social como
Fim
O objetivo final de uma estratégia de
desenvolvimento nacional deve ser a edificação de uma sociedade organizada em
torno de uma política eficaz de pleno emprego em ocupações dignas e saudáveis.
Esse projeto contempla uma sociedade intrinsecamente democrática,
tecnologicamente avançada e ambientalmente sustentável. A infraestrutura
material — logística, energia, saneamento e transportes — deve ser moderna e
universal, servindo como base para a prosperidade coletiva.
Esse conjunto de aspirações encontra sua
síntese conceitual no Estado de Bem-Estar Social, considerado a maior conquista
civilizatória do século XX (MARSHALL, 1967). Tal modelo conformou um ambiente
institucional que valoriza simultaneamente a liberdade individual, a atividade
empresarial, a gestão republicana e a justiça social.
Contudo, sua sustentabilidade requer uma
economia que subordine a lógica financeira aos objetivos sociais. É nesse ponto
que o pensamento de Lara Resende (2017) torna-se particularmente relevante. Em A
Crise da Macroeconomia, o autor afirma que o paradigma tradicional, ancorado na
escassez e na neutralidade da moeda, perdeu validade. Para ele, o Estado, como
emissor soberano da moeda, não é um agente doméstico comum; portanto, a
austeridade fiscal cega pode inviabilizar o próprio desenvolvimento. A economia
deve estar a serviço da sociedade — e não o contrário.
A Macroeconomia a Serviço do
Desenvolvimento
O modelo macroeconômico é a espinha dorsal
que sustenta ou inviabiliza um projeto desenvolvimentista. O tripé composto
pela política fiscal, monetária e cambial deve ser coordenado para criar um
ambiente de baixo custo orçamentário, permitindo o financiamento das políticas
sociais universalistas.
Políticas monetárias excessivamente
restritivas, com juros elevados, impõem um fardo pesado ao orçamento público
via serviço da dívida, comprimindo os gastos em áreas essenciais como saúde e
educação. Existe, assim, uma clara tensão entre as políticas macroeconômicas e
as sociais.
Lara Resende (2017) denuncia que a
macroeconomia dominante ainda opera sob uma “visão pré-keynesiana”, tratando a
moeda como neutra e o Estado como devedor comum. Ao reabilitar a dimensão
política da economia, o autor propõe uma macroeconomia da abundância
responsável, na qual a capacidade produtiva e o bem-estar social são os
verdadeiros limites à expansão do gasto público.
Em consonância, Gustavo Franco (2005), em
*Cartas a um Jovem Economista, recorda que a economia é uma disciplina moral,
dependente de valores, escolhas e visões de mundo. O desafio do economista,
segundo ele, é harmonizar eficiência técnica com justiça social — o que implica
uma leitura ética da política econômica.
Portanto, uma macroeconomia a serviço do
desenvolvimento deve romper com o dogma da neutralidade fiscal e reconhecer que
o gasto público socialmente produtivo é um investimento em capital humano e
coesão nacional, não uma despesa a ser contida.
A Administração Fiscal Desenvolvimentista e a Herança de
Ricardo
A administração fiscal desenvolvimentista
deve conciliar três objetivos: fazer justiça social, manter a economia em rota
de crescimento com geração de empregos e gerir a dívida pública com
responsabilidade. O equilíbrio orçamentário não é um fim em si mesmo, mas um instrumento
macroeconômico.
Como demonstra a história econômica,
orçamentos se equilibram em períodos de crescimento robusto, não através de
cortes recessivos que, ao deprimir a atividade econômica, reduzem a arrecadação
e ampliam os déficits.
A justiça social na administração fiscal é
perseguida tanto pela via dos gastos quanto pela arrecadação. É neste ponto que
os postulados de David Ricardo (1982) se mostram profeticamente contemporâneos.
Para o autor, um bom sistema tributário deve ser claro, econômico na cobrança e
incidir sobre a renda, e não sobre o capital. Ele alertava que “os impostos
sobre a produção ou sobre os lucros do capital... seriam, em última análise,
transferidos para o consumidor, através de preços mais altos, ou absorvidos
pelo produtor, corroendo os fundos destinados à acumulação” (RICARDO, 1982, p.
123).
Essa visão encontra eco nas preocupações
contemporâneas com a regressividade tributária e com a financeirização da
economia. Tanto Lara Resende quanto Franco reconhecem que a racionalidade
fiscal deve estar a serviço da prosperidade coletiva, e não submissa ao
automatismo dos mercados. O sistema tributário progressivo é, assim, o elo
entre a tradição clássica e a sensibilidade moderna: **tributar a riqueza
improdutiva e liberar o potencial humano.
Considerações Finais
A estratégia de desenvolvimento aqui
delineada é, antes de tudo, um convite para sonhar um Brasil mais próspero,
justo e sustentável. Ela não se realiza apenas na técnica, mas na capacidade de
mobilizar a sociedade em torno de um projeto comum. O Estado de Bem-Estar
Social emerge como o horizonte civilizatório desse esforço, e sua viabilidade
depende criticamente de um pacto fiscal inteligente e justo.
Revisitar David Ricardo não é um exercício
de arqueologia econômica, mas uma forma de recuperar insights estruturantes
sobre a relação entre tributação, acumulação e equidade. O diálogo com André
Lara Resende e Gustavo Franco revela que a macroeconomia é, antes de tudo, uma
escolha civilizatória. Reformar o sistema tributário e reconceber a política
macroeconômica como instrumentos de desenvolvimento integral é um desafio
simultaneamente técnico e ético.
A construção desse futuro não é uma mera
carta de intenções, mas um imperativo moral e histórico para a nação
brasileira.
Referências
FRANCO, Gustavo. Cartas a um Jovem
Economista. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
KEYNES, John Maynard. *A Teoria Geral do
Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Atlas, 1982.
LARA RESENDE, André. A Crise da
Macroeconomia: Crítica à Ortodoxia e à Falácia da Escassez Monetária. São
Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MARSHALL, T. H. Cidadania, Classe Social e
Status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.
RICARDO, David. Princípios de Economia
Política e Tributação. São Paulo: Nova Cultural, 1982. (Os Economistas).
SEN, Amartya. Desenvolvimento como
Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.



